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Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes

Filho Pródigo

12/04/2026

O homem viaja o mundo a procura do que ele precisa e volta pra casa para encontrar. George Moore.

Filho Pródigo

Estou de volta. Não é a volta do filho pródigo até porque não recebi, nem dissipei herança nenhuma. Mas aqui estou, de volta a minha querida Santana do Ipanema. Já me perguntaram - Você não teve nenhuma dúvida? Espera, respondo daqui pouco. Um poeta Alagoano radicado no rio de janeiro JOÃO FRANCISCO CAVALCANTI (João Barafunda) já tinha esse dilema, volto ou não volto para Maceió, (no meu caso, Santana) como bardo pois sua angustia em poesia…

JOÃO! JOÃO!

Vive a saudade a me dizer baixinho:
"João! Regressa à terra onde nasceste:
Onde o primeiro e puro amor tiveste..
Vamos: bardo da d0Ç põe-te a caminho!"

E mais cruel que traiçoeiro espinho:
Diz-me o remorso: "João! tu que fizeste
Das tuas juras? Volve ao pátrio ninho;
Ave que um voo eterno desprendeste!

Ouço um anjo dizer-me quando sonho:
"João! a mais formosa entre as formosas:
Se não voltares: morrerá; suponho.

Porém diz-me a bater o coração,
Depois de tantas súplicas saudosa:
"Se tu queres penar — volta, João!

Será que sofro também dessa síndrome, pelo menos conscientemente não. João Barafunda como bom leitor com certeza leu nosso conterrâneo Ledo Ivo no seu livro “Ninho de Cobra” e ficou reticente, amo a minha rainha do Sertão e como toda rainha tem os seus caprichos.

Se algum dia
À minha terra eu voltar
Quero encontrar
As mesmas coisas que deixei
Quando o trem parar na estação
Eu sentirei no coração
A alegria de chegar…

Como diz a canção de grande sucesso na voz do Agnaldo Timóteo, não encontrei as mesmas coisas que deixei. Será porquê? Porque o tempo não para lembra outra canção, e nada volta, tudo flui num continuo como um rio do filosofo Parmênides: “ninguém se banha nas mesmas águas duas vezes”. Enfim vamos as minhas impressões:

Como vejo agora esta cidade, com suas ruas, praças e esquina que fez parte da minha vida, da minha infância. Cada cantinho vejo a história da meninice vindo à tona na memória como um filme, lugares onde me reunia com os amigos, e os primos (rebanho - é muita gente), lugares onde brinquei, briguei, namorei, estudei me diverti e fui muito feliz.

A cidade é toda lembrança, cada paralelepípedo hoje coberto por asfalto tem uma história, mas ela está mudando, e quando ela muda é como arrancasse um pedacinho de você, não a culpo, afinal é outra geração que está escrevendo sua própria história e fazendo também suas memórias. Mas não deixa de ser triste em alguns aspectos, como por exemplo a igreja matriz (agora Santuário, Ad Maiorem Dei Gloriam) que após o sinistro, ao ser reconstruída foi descaracterizada, não obedeceram a planta original, que era belíssima com seu altar-mor, e seus altares laterais, seu teto com sua pintura que nos elevava ao Céu (trocamos por candelabros de cristais) e principalmente suas colunas maravilhosas. As igrejas são concebidas para serem grandiosas e belas, primeiro para mostrar ao homem que somos pequenos diante da grandiosidade de Deus, segundo mostrar a beleza, porque ser bom belo e verdadeiro é atributo de Deus. Saímos perdendo, aliás parece ser tema recorrente nesse mundo distópico em que vivemos.

E por falar de beleza, em nome do progresso e da modernidade a humanidade parede sofrer de uma doença que os gregos identificaram com Apeirokalia, perdemos o senso estético? ou nunca tivemos? até porque como ter este horizonte de consciência se a educação desse País está destruída. Vejo com tristeza tudo isso, quem não preserva sua memória perde-se na história e se aniquila a curto prazo, a sua cultura.

Por exemplo: veja o nosso casario da rua Martins Vieira o belo contraste entre a casa ainda preservada de seu Domício Silva, uma mistura de Chalé com Art décor típico da década de 50, e as casa de hoje (herança deletéria do Bauhaus) típicas casas de condomínio, colocando-se lado a lado o século 20 e o 21, dois mundos completamente diferentes. Ainda bem que minha geração é vintage.

Ainda acredito que a Beleza salvará o mundo, mas, voltando a olhar para a cidade o que restou afinal do seu casario? bate uma tristeza misturada com melancolia das casas de outrora. Santana, hoje abre espaço para casas modernas, grandes, com muitos vidros, iluminação em led, mas frias, de linhas retas e de cores gris etc., as ruas que outrora era as residências dos notáveis, hoje dar lugar a bares, restaurantes, bancos, colégio etc. e os seus antigos moradores quando não foram morar na Jerusalém Celestial, foram obrigados pela fome do comercio por cada vez mais espaço, a residirem em condomínios horizontais (Deus nos livre ainda por muito tempo dos verticais - Como diz um amigo. - Jamais morarei em cidade que os prédios são maiores que a torre da igreja, ele achava um desrespeito a Deus, aliás foi quando os prédios passaram a serem maiores que a torre da igreja que a sociedade se perdeu na babel de hoje em dia) para acomodar esta nova dinâmica dos tempos atuais.

Mas, aqui pra nós, o que nos resta é aceitar o que não pode ser mudado, mas ensinar as novas gerações que a beleza importa, tanto quando as comodidades inegáveis que a vida moderna nos trouxe, porém devemos mirar no exemplo do Japão o país mais tecnológico do mundo, onde um templo xintoísta de 500 anos permanece ao lado de um prédio futurista, passado e presente vive lado a lado para nos lembrar de onde viemos, o que somos e para onde vamos, isto é o que nos define.

De ti não quedarei rancores Santana dos meus amores…

Joaquim José Oliveira Chagas